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Mineradoras do Pará degradam floresta e contaminam população com metais pesados.

autor Publicado em 13 de Abril de 2018

 

 

“Eu sou paraense, eu moro aqui e vivo aqui desde que nasci. E não consigo compreender como é que entregam a floresta, entregam nossos rios ao capital estrangeiro”. O desabafo é de uma cidadã do estado do Pará que não se conforma ao ver indústrias multinacionais jogarem seus expurgos no meio ambiente sem uma intervenção efetiva do poder público. Simone Pereira é professora e pesquisadora da Universidade Federal do Pará que reflete sobre os efeitos de mineradoras no ecossistema local. Disposta a mudar a realidade da comunidade de Barcarena, a cerca de 100 quilômetros da capital Belém, a cientista se viu assombrada pelos resultados de sua pesquisa. “Quando fiz esse estudo, achei que teria problema com três elementos: o chumbo, o alumínio e o fósforo, mas, dos 21 elementos pesquisados, 20 deram acima ou do controle ou das referências mundiais”, destaca.

estudo a que se refere é uma pesquisa feita com amostras de fios de cabelo das pessoas que vivem na região. Simone achou necessário coletar essas amostras depois de constatar grande contaminação no solo e em reservas hídricas. Há presença de chumboem 90% dos poços artesianos das comunidades pesquisadas e, em 80% da população analisada, as amostras revelam a contaminação também por chumbo. Em fevereiro deste ano, uma das empresas teve parte das operações embargadas pelo Ministério Público Federal assim que foram constatados dutos que liberavam rejeitos industriais de forma irregular. “Essa exposição vem de anos, talvez de décadas, além disso não posso afirmar que é apenas por uma rota. Talvez não seja somente por meio da água de consumo”, lamenta a pesquisadora.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-LineSimone faz um relato detalhado que revela o drama da comunidade. “A situação é de calamidade pública: temos pessoas morando no local que estão totalmente expostas a várias rotas de entrada de elementos tóxicos”, aponta. Diante desse cenário, reconhece que é difícil não se envolver com a questão além da pesquisa. “No dia da entrega dos resultados, fiz questão de não olhar nomes, porque muitas daquelas pessoas se tornaram minhas amigas ao longo de 11 anos ali na área”. Ela conta o caso do filho de oito anos de Érica, uma das moradoras locais. “Ela fala que ele está caindo. Diz que está de pé e, de repente, cai, desmaia. Não é nenhum tipo de doença conhecida, já levou ao médico e não sabe o que é. Ele está com níveis de alumínio 100 vezes acima [do aceitável]”, conta.

A pesquisadora reconhece que depois da repercussão dos dados sobre a contaminaçãodas pessoas, algumas ações começaram a ser feitas. Mas ainda é pouco. “Descobri que algumas pessoas que participaram desse estudo já morreram. Ou seja, você se esforça para fazer um estudo e percebe que para algumas pessoas isso foi tarde demais. Esse resultado demorou muito para ser entregue e não tem mais jeito. Conseguem compreender a gravidade disso?”, questiona.

Mais do que ações de saúde pública e atenção àquelas pessoas, é preciso efetividade do poder fiscalizador das mineradoras no Pará. “Simplesmente a empresa vai lá e faz sua pressão, não tem licença de operação e começa a jogar lama vermelha ali, sem nenhum estudo e numa área que é de proteção ambiental, que tem várias nascentes de rios importantes daquela região”, dispara. E provoca: “se o desenvolvimento sustentávelé utopia, eu não sei, mas as indústrias lucram em torno de 300 milhões de reais por ano na venda desse alumínio. Não é possível que não invistam para fazer o tratamento [de efluentes]”.

Simone Pereira | Foto: UFPA

Simone Pereira coordena o Laboratório de Química Analítica e Ambiental da Universidade Federal do Pará - UFPA. Possui graduação em Engenharia Química e Licenciatura em Química pela UFPA, especialização em Educação e Problemas Regionais pela mesma instituição e doutorado em Química pela Universidade Federal da Bahia - UFBA. Atualmente é professora associada da UFPA, onde também é líder do grupo de pesquisa de Química Analítica e Ambiental.

Confira a entrevista.

IHU On-Line — Como foi desenvolvida a sua pesquisa, que apontou a presença de substâncias cancerígenas em moradores que residem no polo industrial de Barcarena? A senhora já tinha alguma hipótese ou evidências de que a população de Barcarena poderia estar contaminada por essas substâncias?

Simone Pereira — Em 2012, o Ministério Público Federal foi acionado pela comunidade e o procurador Bruno Valente solicitou à Universidade um estudo da água de consumo. Nós fizemos esse estudo entre 2012 e 2014, e em 2014 foi entregue o relatório. A conclusão geral do estudo foi de que as 26 localidades pesquisadas — incluindo a cidade de Barcarena e a Vila dos Cabanos, que são os dois maiores aglomerados urbanos, com cerca de 90 mil pessoas — estavam com contaminação da água, principalmente por alumíniofósforo e chumbo. A partir do estudo da água, o Ministério Público Federal entende a urgência da situação, porque quem bebe água contaminada acaba sendo contaminado. Além disso, houve contaminação da rede pública, no sistema de abastecimento das cidades de BarcarenaVila dos CabanosDistrito IndustrialVila do Conde e outros locais em que se tinha a captação de água subterrânea e essa água era distribuída para a população local.

Esse estudo também foi realizado na área das ilhas, que é uma área rural, onde também encontramos essa contaminação, mais atenuada, mas também extrapolando os níveis permitidos pela legislação número 2.914 de 2011 do Ministério da Saúde. Com isso, evidenciou-se que essa população estava em risco e o Ministério Público Federalsolicitou esse estudo “do cabelo” [em que as análises são feitas em amostras de fios de cabelo dessa população]. Já em 2014, nós iniciamos o processo de licença para poder fazer pesquisas em humanos, entramos com o processo no Comitê de Ética e Pesquisa da universidade e depois obtivemos a liberação pela Comissão Nacional de Ética e Pesquisa - Conep.

 

A partir da liberação, em 2015, iniciamos a coleta em fevereiro e ela se estendeu até agosto de 2015. Também fomos atrás de recursos, pois, infelizmente, o Ministério Público Federal solicitou esses estudos, mas não tem recursos para bancar. São exames caros e que necessitam de bastante apoio para que possam ser feitos. Em 2016 conseguimos esses recursos por meio de outros projetos que conseguimos aprovar, e começamos os estudos. Eles seguiram até 2017, quando tivemos uma quebra do equipamento e ainda faltava a análise de quatro metais importantes — arsêniomercúriobário e cádmio. Não queríamos passar o relatório incompleto, mas, infelizmente, não foi possível conseguir mais recursos em 2017. Por isso decidi, agora em 2018, entregar o relatório, mesmo incompleto.

Essa foi a história de como fizemos essa pesquisa. Basicamente, o estudo foi feito por uma hipótese de que essa população estaria sujeita à contaminação por metais tóxicos advindos da água de consumo. O estudo que fizemos constatou essa contaminação da água.

IHU On-Line — A contaminação da água extrapola a região do Polo Industrial?

Simone Pereira — Sim. Nós fizemos coleta na Trambioca, que é uma ilha. Aqui tudo é perto, na verdade, de Belém a Barcarena são 20 quilômetros em linha reta, de Belém à Vila do Conde são cerca de 40 quilômetros, onde está o Polo Industrial e onde estão localizadas as grandes empresas, tanto na Vila dos Cabanos quanto em Vila do Conde, que são aglomerados urbanos longe de Barcarena. Então, as empresas foram se instalando, as pessoas ali morando, e as comunidades tradicionais permaneceram. Essas pessoas nunca foram remanejadas de lá.

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